A reportagem é de Piero Locatelli, publicada por Repórter Brasil, 07-04-2015.
Publicado em 08/04/2015 ás 16h17
O número de
trabalhadores terceirizados deve aumentar caso o Congresso aprove o Projeto de Lei 4.303. A nova lei abre
as portas para que as empresas possam subcontratar todos os seus serviços.
Hoje, somente atividades secundárias podem ser delegadas a outras empresas,
como por exemplo a limpeza e a manutenção de máquinas.
Entidades de trabalhadores, auditores-fiscais,
procuradores do trabalho e juízes trabalhistas acreditam que o projeto é nocivo
aos trabalhadores e à sociedade.
Descubra por que você deve se preocupar com a
mudança.
1 - Salários e
benefícios devem ser cortados
O salário de
trabalhadores terceirizados é 24% menor do que o dos empregados formais,
segundo o Dieese(Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Socioeconômicos). No setor bancário, a diferença é ainda maior:
eles ganham em média um terço do salário dos contratados. Segundo o Sindicato
dos Bancários de São Paulo, eles não têm participação nos lucros,
auxílio-creche e jornada de seis horas.
2 - Número de
empregos pode cair
Terceirizados trabalham, em média, 3 horas a mais
por semana do que contratados diretamente. Com mais gente fazendo jornadas
maiores, deve cair o número de vagas em todos os setores. Se o
processo fosse inverso e os terceirizados passassem a trabalhar o mesmo número
de horas que os contratados, seriam criadas 882.959 novas vagas, segundo o
Dieese.
3 - Risco de
acidente vai aumentar
Os terceirizados
são os empregados que mais sofrem acidentes. Na Petrobrás, mais de
80% dos mortos em serviço entre 1995 e 2013 eram subcontratados. A segurança é
prejudicada porque companhias de menor porte não têm as mesmas condições
tecnológicas e econômicas. Além disso, elas recebem menos cobrança para manter
um padrão equivalente ao seu porte.
4 - Preconceito no
trabalho pode crescer
A maior ocorrência
de denúncias de discriminação está em setores onde há mais terceirizados, como
os de limpeza e vigilância, segundo relatório da Central Única dos
Trabalhadores (CUT). Com refeitórios, vestiários e uniformes que os
diferenciam, incentiva-se a percepção discriminatória de que são trabalhadores
de “segunda classe”.
5 – Negociação com
patrão ficará mais difícil
Terceirizados que trabalham em um mesmo local têm
patrões diferentes e são representados por sindicatos de setores distintos.
Essa divisão afeta a capacidade deles pressionarem por benefícios. Isolados,
terão mais dificuldades de negociar de forma conjunta ou de fazer ações como
greves.
6 – Casos de
trabalho escravo podem se multiplicar
A mão de obra terceirizada é usada para tentar
fugir das responsabilidades trabalhistas. Entre 2010 e 2014, cerca de 90% dos
trabalhadores resgatados nos dez maiores flagrantes de trabalho escravo
contemporâneo eram terceirizados, conforme dados do Ministério do Trabalho e
Emprego. Casos como esses já acontecem em setores como mineração, confecções e
manutenção elétrica.
7 - Maus
empregadores sairão impunes
Com a nova lei, ficará mais difícil responsabilizar
empregadores que desrespeitam os direitos trabalhistas porque a relação entre a
empresa principal e o funcionário terceirizado fica mais distante e difícil de
ser comprovada. Em dezembro do último ano, o Tribunal Superior do Trabalho
tinha 15.082 processos sobre terceirização na fila para serem julgados e a
perspectiva dos juízes é que esse número aumente. Isso porque é mais difícil
provar a responsabilidade dos empregadores sobre lesões a terceirizados.
8 - Haverá mais
facilidades para a corrupção
Casos de corrupção
como o do bicheiro Carlos Cachoeira e do ex-governador do
Distrito Federal José Roberto Arruda envolviam a terceirização
de serviços públicos. Em diversos casos menores, contratos fraudulentos de
terceirização também foram usados para desviar dinheiro do Estado. Para o
procurador do trabalho Rafael Gomes, a nova lei libera a
corrupção nas terceirizações do setor público. A saúde e a educação pública
perdem dinheiro com isso.
9 - Estado terá
menos arrecadação e mais gasto
Empresas menores
pagam menos impostos. Como o trabalho terceirizado transfere funcionários para
empresas menores, isso diminuiria a arrecadação do Estado. Ao mesmo tempo, a
ampliação da terceirização deve provocar uma sobrecarga adicional ao SUS
(Sistema Único de Saúde) e ao INSS. Segundo juízes do TST,
isso acontece porque os trabalhadores terceirizados são vítimas de acidentes de
trabalho e doenças ocupacionais com maior frequência, o que gera gastos ao
setor público.

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